Mais orgânicos, menos agrotóxicos, por favor

20 de julho de 2019



Vamos começar pelas boas notícias?

De acordo com a IFOAM (Internacional Federation of the Organic Agriculture Movement), mais de 180 países produzem orgânicos. No mundo, 2,7 milhões de produtores orgânicos ocupam 58 milhões de hectares (1,2% das terras cultiváveis do planeta) e geram uma receita da ordem de US$ 90 bilhões por ano.

Só no Brasil, a produção orgânica faturou R$ 4 bilhões em 2018. Desse total, US$ 130 milhões (R$ 480 milhões) vieram das exportações, em um aumento de 10% sobre o ano anterior, segundo o ORGANIS – Conselho Brasileiro de Produção Orgânica e Sustentável.

Por outro lado, nunca se aprovou tanto agrotóxico no país como agora. O ritmo atual de liberação já é o maior documentado pelo Ministério da Agricultura desde 2005, quando os números começaram a ser divulgados. De acordo com o portal de notícias G1, a quantidade de pesticidas registrados aumentou sobretudo nos últimos 4 anos. Mas, em 2019, o salto foi ainda maior: até o final de junho, foram aprovados 211 produtos.

Segundo levantamento feito pelo Greenpeace em maio – quando já eram 169 os agrotóxicos aprovados só este ano -, 48% estavam classificados como alta ou extremamente tóxicos.

Brasil aprovou o que a União Europeia baniu

Ainda segundo o Greenpeace, 25% desse produtos não são permitidos na União Europeia. “O que a gente está vendo é que o Brasil acabou virando um depósito de agrotóxicos que são proibidos lá fora”, declarou ao G1 a especialista em agricultura e alimentação do Greenpeace, Marina Lacôrte.

Conforme apurou o site da revista Piauí, as lavouras brasileiras receberam, em 2016, um quinto de todo o agrotóxico usado no mundo.

Entidade faz alerta

Segundo a Piauí, em 2016, o Brasil aplicou 777,4 mil toneladas de agrotóxicos agrícolas nas suas lavouras – praticamente o dobro do que foi aplicado nos Estados Unidos (407,7 mil toneladas). Os Estados Unidos são os maiores exportadores mundiais de produtos agrícolas, enquanto o Brasil ocupa o quinto lugar nesse ranking.

E registrar um agrotóxico no Brasil é bem barato. Em 2015, custava 526 dólares. Naquele ano, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a mesma operação saía por 630 mil dólares nos Estados Unidos – 1.197 vezes mais caro.

De todos os pesticidas aprovados este ano no país, 8 são moléculas ou misturas de glifosato, herbicida associado a um tipo de câncer em processos milionários nos Estados Unidos e alvo de polêmica também no Brasil.

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que junto com o Greenpeace e outras instituições forma o coletivo Chega de Agrotóxicos, faz outro alerta. Segundo a médica da entidade, Ada Aguiar, as pesquisas no país só avaliam os efeitos de cada veneno isolado na saúde humana, mas o que acontece na vida real é o contato simultâneo com vários produtos.

Benefícios dos orgânicos

Alimentos orgânicos são aqueles que utilizam, em todos seus processos de produção, técnicas que respeitam o meio ambiente e visam a qualidade do alimento. Desse modo, não são usados agrotóxicos nem qualquer outro tipo de produto que possa vir a causar algum dano à saúde dos consumidores ou dos trabalhadores envolvidos na produção.

Berinjelas orgânicas

Na agricultura orgânica, são usados apenas sistemas naturais para combater pragas e fertilizar o solo. Sua produção respeita o meio ambiente, evitando a contaminação do solo, da água e da vegetação. E além de mais saudáveis, os orgânicos são mais saborosos.

Recentemente, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina – a mesma que avalizou a aprovação recorde de agrotóxicos nos últimos meses -, declarou, em maio, que será criada uma política pública de orgânicos para incentivar essas culturas no interior do país.

O que disse a ministra

A ministra afirmou que vai estimular a produção de alimentos orgânicos nos municípios, para serem destinados às escolas dentro do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Para isto, serão incentivadas as hortas comunitárias e até caseiras. “Queremos levar alimentos cada vez mais sadios às nossas crianças”, garantiu a ministra.

Segundo Tereza Cristina, o PNAE é um grande instrumento de desenvolvimento pois faz circular dinheiro na economia dos municípios. Para tanto, os prefeitos precisam usar os 30% previstos em lei, que são repassados pelo PNAE às prefeituras, para compra direta de produtos da agricultura familiar. “Hoje, a utilização dos recursos não chega a 20%”, disse a ministra, que garante: tem planos para expansão da agricultura orgânica no país, com o Ministério criando normas para facilitar o registro dos produtos fitossanitários aprovados para uso na agricultura orgânica (no controle de pragas e doenças).

Soa contraditória a declaração da ministra – que, como parlamentar, já era conhecida como “musa do veneno” por ser uma ardorosa defensora do uso de agrotóxicos. Mais uma razão para que a população fiscalize e cobre.

Afinal, agricultura orgânica é – essa sim! – pop, tech, tudo.

Fotos: todos os legumes orgânicos que ilustram este texto são da Fazenda Annalisola, de Paraíba do Sul (RJ), uma das fornecedoras do Vegan Vegan. (Crédito: Annalisa Ika)

ESCRITO POR

Vegan Vegan

Criado em 2004, o Vegan Vegan é mais que um restaurante 100% vegetariano. É também um espaço para debater a alimentação vegana, seus princípios e benefícios para a saúde.