Coração vegano

11 de fevereiro de 2020



André Pessanha, 62, é médico cardiologista há mais de três décadas e vegano há quatro anos Uma enfermidade vivida pela sua esposa, a atriz Maria Mariana, com quem tem quatro filhos, o fez compreender que as doenças têm causas sistêmicas. Isso o levou não só a mudar a sua dieta, como também a própria maneira de atuar na medicina.

“Eu descobri informações que não chegam ao médico de uma forma geral, e ficou evidente que a alimentação de origem animal está na base de todas as doenças crônicas, especialmente aquelas que eu venho lidando há mais tempo, que são as do coração”, diz.

Especializado no Instituto do Coração de São Paulo (Incor-SP), Pessanha foi pioneiro no Rio de Janeiro na cirurgia de implante de stents (aquela prótese colocada no interior da artéria para evitar a obstrução dos vasos sanguíneos), dentro da lógica intervencionista da cardiologia. Hoje, no entanto, está convencido de que o tratamento mais eficaz para as doenças cardíacas está na mão do paciente, e não do cirurgião. Entre suas referências está o médico norte-americano Dean Ornish, criador do programa de reabilitação cardíaca que salvou a vida do ex-presidente dos EUA Bill Clinton.

André Pessanha é o convidado da nutricionista e chef vegana Thina Izidoro nesta quarta, 12 de fevereiro, na primeira edição de 2020 do ciclo de palestras do Vegan Vegan, “SOS Saúde”.

Leia a seguir a entrevista concedida ao Vegan Blog. E se você estiver no Rio, aproveite e apareça no Vegan Vegan nesta quarta-feira, em Botafogo: a palestra, com entrada gratuita, acontece entre 18h e 20h30.

Por que o consumo de proteína animal faz mal à saúde?

– Toda proteína de origem animal é inflamatória, porque pertence a uma estrutura molecular diferente da nossa, de outra espécie. Para simplificar, é como se fosse uma reação alérgica. A inflamação está na origem de todas as doenças crônicas. O exemplo mais extremo disso são as doenças autoimunes. Essa proteína é tão estranha para o organismo humano que ele cria anticorpos para combater aquela proteína como se fosse uma bactéria, um agente inimigo externo. Isso gera uma confusão imunológica que mina as células do próprio corpo. O resultado são doenças autoimunes como artrite reumatoide, que é quando os anticorpos atacam as próprias articulações das pessoas. A artrite reumatoide é, na verdade, uma doença alimentar. Essa inflamação pode ter um nível baixo, mas crônico, que pode acarretar doenças como arterioesclerose, que é a base das doenças do coração, dos AVCs…

Uma das referências do seu trabalho é o programa adotado pelo ex-presidente dos EUA Bill Clinton. O que essa dieta tem de especial?

– Essa dieta foi desenvolvida pelo médico cardiologista da Califórnia Dean Ornish. Ele tem uma história interessante. Na época de estudante, no segundo ano de medicina, ele trancou a matrícula na faculdade para conduzir um estudo que acabou sendo a base de sua carreira como médico. Nesse estudo, ele comprovou que a alimentação vegana é capaz de reverter a doença arteriosclerótica, que é a causa número um de mortes no mundo. Ainda hoje um número absurdo de pessoas morre, em fase produtiva da vida, por obstrução na parede interna das artérias. Esse processo está ligado à alimentação de gordura e proteína animais. O que Ornish fez foi comprovar que ao fazer o caminho inverso, ou seja, ao tirar as proteínas animais da dieta é possível reverter o processo que originou essas placas, esses depósitos de gordura. É lógico que não vai limpar completamente, mas se você diminui uma obstrução de 90% para 70%, isso já é um alívio de fluxo muito grande. O fluxo por uma artéria segue uma lei da física que é relacionada à quarta potência do raio, ou seja, um pequeno aumento da passagem livre do sangue na artéria proporciona um aumento em quatro vezes esse fluxo. Então, para resumir, se você reduz a obstrução de 90% para 70% você está praticamente livrando a pessoa dos sintomas. Isso significa que pequenas mudanças no grau de obstrução promovem grandes mudanças clínicas, de melhora da passagem de sangue e da oxigenação. O pilar central desse programa elaborado há quase 40 anos é a alteração da dieta. Fora isso, o programa também inclui a gestão de estresse, exercícios, e um novo condicionamento mental.

Por que uma descoberta dessa não ganhou mais repercussão?

– Porque o interesse comercial fala mais alto. Essa novidade não interessou ao segmento da indústria da medicina que atua com cirurgias e implantes, como stents e medicamentos como estatina, droga para reduzir o colesterol, que hoje até adolescente toma. A informação de que a dieta seria capaz de reverter esse problema não interessou a essa indústria. Mas esse médico trouxe algumas conclusões interessantíssimas. Ele afirma, por exemplo, que genética não é destino. Muita gente acha, por exemplo, que se o pai e a mãe têm pressão alta é questão de tempo para que o filho desenvolva essa manifestação. O que Ornish mostrou é que isso acontece, em mais de 80% dos casos, porque os filhos adquirem os hábitos alimentares dos pais.

Por falar nisso, como você costuma lidar com aqueles pacientes que chegam com problemas cardíacos mais graves? Como é essa primeira abordagem?

– Esse é o grande ponto. Acho que a pessoa tem o direito de saber a verdade, mas é uma questão delicada. Esse movimento dentro da medicina que está valorizando a linha adotada por profissionais como Ornish se chama “medicina do estilo de vida”. Existe hoje o Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, fundado em São Paulo, que já está na segunda edição do seu congresso, e eu percebo pelos relatos que ainda se evita dizer claramente para o paciente que ele precisa mudar sua maneira de viver, por medo de que ele vá embora atrás de um médico mais alinhado com aquela abordagem a qual está acostumado. Vou dar um exemplo: semana passada me ligou a esposa de um paciente dizendo que ele tinha recebido um diagnóstico de doença coronariana com indicação de cirurgia, e a pessoa nunca tinha sentido nada. Isso é comum: ele vai fazer o checkup, chega ao cateterismo, e constata a doença, sem nunca ter sentido nada. É mais uma dessas pessoas que se alimenta de maneira tradicional, e vai desenvolvendo a doença silenciosamente, até que um belo dia cai quase nessa armadilha de diagnosticar uma coisa óbvia. Porque a gente já sabe que as pessoas do sexo masculino com 65 anos ou mais, que tem uma dieta onívora (que come vegetais e carnes), como era o caso desse paciente, em 100% das vezes têm a doença. Ela pode não se manifestar, mas já está lá. Então eu não preciso de um cateterismo para saber que uma pessoa com esse perfil já tem a doença. Por causa do diagnóstico, esse paciente acabou desenvolvendo um quadro de depressão e passou a tomar medicação. Quando a esposa me contou essa história, eu pensei logo que o paciente viria disposto a mudar seu estilo de vida. Mas quando nos falamos ontem, ele disse que tinha visto alguns vídeos meus, achou “radical” a ideia de adotar a dieta vegetariana e desmarcou a consulta até segunda ordem…

Mudar a dieta assutou mais que a cirurgia?

– Pois é, ele ainda não sente nada, mas já está com o martelo na cabeça, alguém disse que ele tem que operar. A propósito, saiu agora um estudo nos EUA intitulado “Isquemia”, que é o termo técnico para quando o coração sofre por falta de sangue e oxigenação. Esse estudo custou mais de 100 milhões de dólares ao governo norte-americano, pra descobrir o que todos já sabiam: para um paciente que não tem qualquer sintoma, como esse, que só tem o diagnóstico, mas ainda não teve a manifestação clínica, operar ou colocar o stent não melhora nada. Bastaria mudar alguns hábitos, melhorar a dieta, reduzir o consumo de carne, fazer exercícios que teria o mesmo efeito, mas as pessoas ainda preferem entrar numa mesa de cirurgia.

E radical é quem propõe mudar hábitos em vez de partir pra cirurgia cardíaca…

– Essa talvez seja a maior cirurgia que existe em grau de agressão ao corpo, mas as pessoas continuam arraigadas naquele hábito de comer o peitinho de frango, o pastel de queijo… E aí me dizem, “mas doutor, o senhor não é muito radical?”. Bom, primeiro, radical é uma palavra positiva, vem da palavra raiz, de quem tem firmeza no que acha, tem propósito. E segundo, radical é a pessoa correr risco de passar por uma cirurgia dessa, ter o peito rachado, havendo alternativa. Se eu não preciso, eu não quero correr esse risco, pra daqui a 10 anos estar na mesma situação. E no fim, eu que sou radical porque sou vegano.

Em um trabalho de reversão de doença cardíaca, se fosse possível separar em termos percentuais, qual seria o peso da alimentação e da atividade física?

– Eu diria que 80% é alimentação. A atividade física só faz diferença mesmo, isoladamente, para superatletas ou uma pessoa que desde jovem é esportista, que nunca fumou. Mas aquele exercício básico na academia ou aquela caminhada, sem uma mudança na dieta, não faz diferença.

Voltando ao programa do dr. Dean Ornish, dá pra contar um pouco mais sobre o caso do ex-presidente Bill Clinton?

– Com pouco menos de 60 anos, Clinton já tinha colocado não sei quantas pontes e mamárias, além de uma meia dúzia de stents. Esse processo de esclerose é contínuo. Enquanto a pessoa está comendo aquelas porcarias, as artérias vão obstruindo. Ele tinha angina, dor no peito, até que conheceu esse médico. O Ornish desenvolveu, então, um programa alimentar com o chefe da cozinha da Casa Branca e do Force One, o avião presidencial. Ele passou a adotar a alimentação “plant based”, totalmente baseada em plantas. Essa dieta tem três preceitos: é baseada 100% no reino vegetal, não tem nada processado (só produto intacto ou integral) e não usar óleo, azeite, não refogar com nada. A partir daí, Clinton estabilizou o seu quadro de maneira completa. Hoje ele leva uma vida normal. Isso trouxe uma visibilidade grande para o método. Este médico tem 30 centros de implementação desse programa nos EUA. A ideia do programa é reabilitação cardíaca intensiva. Nos programas tradicionais de reabilitação do coração, o médico bota o paciente para caminhar, para fazer exercício, o que mexe muito pouco com a natureza da doença. Já o Ornish, além do exercício, propõe essa modificação fundamental na alimentação e no estilo de vida como um todo, e também na condição mental da pessoa, para administrar o estresse, propondo melhoria nos relacionamentos, por meio da formação de grupos de pacientes. O programa propõe quatro pilares: “coma melhor”, “se estresse menos”, “se mexa mais” e “ame mais”. Esse médico tem outro grau de compreensão, é um sujeito mais espiritualizado, faz yoga. O cara não é bobo não.

Há quanto tempo você se tornou vegano?

Quatro anos.

 O que fez você tomar essa decisão?

– O fato da minha esposa ter ficado doente. Aos 43 anos, ela teve um tumor cerebral, e eu tive que administrar a doença de forma muito próxima, do contrário talvez ela nem tivesse resistido, tamanha a intensidade do processo. Hoje ela está bem, com saúde, sem sequela nenhuma, graças a Deus. Mas pra tentar entender o que eu poderia fazer por ela em um nível mais profundo, eu fui pesquisar, e entrei em contato com um universo de informações sobre vegetarianismo e doenças crônicas, as chamadas doenças crônicas não transmissíveis, que não são contagiosas ou agudas. Eu descobri informações que não chegam ao médico de uma forma geral, e ficou evidente que a alimentação de origem animal está na base de todas as doenças crônicas, especialmente aquelas que eu venho lidando há mais tempo, que são as do coração. E ficou tão evidente que essa era a causa, que eu fiz essa mudança nos âmbitos pessoal, junto com minha esposa, e profissional.

Depois de ter adotado a dieta vegana, que mudanças no seu corpo e na sua vida em geral lhe chamaram mais a atenção?

– Além de me sentir mais magro, ágil, e de não ter mais gripe ou problemas gastrointestinais, a maior mudança foi no nível mental, na qualidade do meu sono, do meu pensamento, e de passar a ser mais positivo. Eu passei a ter mais concentração, mais qualidade intelectual, mais paz e serenidade. E tem ainda um aspecto que eu falo para os homens, que sempre tem impacto: até na função sexual a gente sente uma melhora, ainda mais na minha faixa etária, de 60 anos. Aliás, vários estudos comprovam isso. O documentário “The Game Changers”, dirigido pelo James Cameron (diretor de “Titanic” e “Avatar”), que é vegano, apresenta estudos apontando a melhora nesse aspecto sentida pelos superatletas que adotaram uma dieta vegana. Na verdade, é uma melhora geral, porque as doenças são sistêmicas, são do organismo como um todo. É como se você parasse de comer veneno.

ESCRITO POR

Vegan Vegan

Criado em 2004, o Vegan Vegan é mais que um restaurante 100% vegetariano. É também um espaço para debater a alimentação vegana, seus princípios e benefícios para a saúde.