Faça uma aula e sinta-se em casa… no próprio corpo

10 de março de 2020



Uma aula de consciência corporal para entrar nos eixos

A fisioterapeuta Valéria Rosa é uma das convidadas do próximo SOS Saúde, que acontece nesta quarta-feira 11, no restaurante Vegan Vegan, entre 18h e 20h30. Especializada em terapias corporais pelo IBMR e em métodos como Cadeias Musculares e Articulares GDS e Ivaldo Bertazzo (Reeducação pelo Movimento), Valéria falará sobre o “Feng Shui Corporal – postura e movimento em harmonia”.

A ideia, na verdade, é dar uma pequena “aula-vivência”. Apoiada em exercícios práticos, ela mostrará como é possível voltar a habitar essa nossa “casa” chamada corpo. “Nesse exato instante, existe uma casa com o seu nome e você é o único proprietário, mas faz tempo que perdeu as chaves, e essa casa onde você não mora é… o seu corpo”, diz, ao citar uma de suas mestras, a fisioterapeuta francesa Thérése Bertherat.

Valéria Rosa durante uma aula-vivência no SOS Saúde (2019)

O “Feng Shui” não entra nessa história por acaso. Assim como a Medicina Chinesa, essa bailarina contemporânea e terapeuta pela dança, formada pela Escola Angel Vianna, também acredita na analogia entre o movimento da natureza e o do corpo. “A palavra chave da consciência corporal é sensibilizar, fazer a pessoa se perceber no espaço e com ela mesma”, explica.

O SOS Saúde tem entrada gratuita. Venha e chame seus amigos. O Vegan Vegan fica na Rua Voluntários da Pátria, 402-B, esquina com Rua Conde de Irajá, em Botafogo.

Leia a seguir a entrevista completa:

As pessoas podem prevenir problemas de postura com exercícios diários?

Não só é possível, como é a única maneira de se prevenir e manter a postura saudável. Quando eu falo exercício, as pessoas pensam que terão de fazer uma longa série, ficar uma hora lá… Não é bem isso, são pequenos ajustes das articulações. É um trabalho de mobilidade articular. Se os encaixes articulares não estão na posição correta, vão acontecer as desordens posturais. Você constrói a sua postura todo dia. Não é em uma aula que você vai resolver. Não adianta, por exemplo, ir duas ou três vezes por semana na aula de Pilates, de Yoga, e voltar ao mesmo padrão de sempre, esquecer tudo. Tem que praticar um pouco todo dia para manter essa consciência do seu corpo e os encaixes das articulações.

Dá para definir o que é consciência corporal?

É você estar pleno no seu corpo, é você estar caminhando e perceber como estão suas passadas, se sua cabeça está muito para frente ou para trás… Claro que você não vai ficar pleno, lindo, o tempo inteiro, não é isso. O ideal é você perceber quando não está, ou seja, quando está muito fora da ordem. Estar consciente é quando você consegue perceber que está meio torto aqui e ali e se corrige sozinho. Isso é consciência. A postura é dinâmica, é movimento, não é uma coisa estática. Não existe a postura 100% correta. Existem vários corpos diferentes, com vários padrões.

E a consciência corporal ajuda a você encontrar o seu padrão?

Sim. O organismo é inteligente, o corpo possui uma inteligência própria. A gente vive na dicotomia entre a mente que pensa e o corpo que apenas age. Mas quando você começa a fazer aula com foco na consciência corporal, é o corpo que vai se conscientizando antes da cabeça sobre onde fica o seu eixo. Aliás, é bem interessante ver uma turma que está completamente fora do eixo, que nem tem consciência que não tem consciência, sabe? É como se a pessoa não tivesse corpo, como se fosse um saco de batata, ela não anda, só se joga pra frente… O Ivaldo Bertazzo (dançarino, coreógrafo e terapeuta do movimento) tem uma expressão muito precisa, ele diz que tem gente que desaba, vive desabada. E é gratificante acompanhar uma pessoa que é assim e que, de repente, começa a ver um eixo nela, ela mesmo se conserta, se organiza, isso é a consciência agindo. 

No SOS Saúde, suas vivências envolvem sempre exercícios práticos. Conta um pouco como isso funciona.

Eu acredito que se não há prática, ficam só as palavras, palavras, palavras… o negócio é levar isso para vivenciar no corpo. Hoje a tendência é ficarmos muito mentais. Se eu chegar na aula falando que o corpo é isso e aquilo, vai entrar por um ouvido e sair pelo outro e a pessoa não vai sentir de verdade. Só faz sentido aquilo que é sentido. Sentir é muito importante, e você só vai sentir a partir dos órgãos do sentido, do corpo, do sensório motor. A gente tem duas vias no sistema nervoso, de sensação e de motricidade. A consciência corporal trabalha nessa linha: você só vai mesmo prevenir a sua postura quando você sensibilizar esse corpo. Não adianta falar, você tem que sensibilizar. A palavra chave da consciência corporal é sensibilizar, fazer a pessoa se perceber no espaço e com ela mesma. O que eu costumo fazer no SOS Saúde é levar isso para a prática, senão não vai fazer sentido.

Valéria passando uma das práticas de sua palestra vivencial

Nessa edição do SOS Saúde, você vai falar sobre “Feng Shui Corporal”. Dá pra resumir o que é?

Quando tomamos consciência do corpo, estamos, na verdade, aprendendo a habitá-lo. A fisioterapeuta francesa Thérése Bertherat, autora de livros como “O corpo fala”, disse uma vez que “nesse exato instante, existe uma casa com o seu nome e você é o único proprietário, mas faz tempo que perdeu as chaves; e essa casa onde você não mora é… o seu corpo”. A ideia do Feng Shui Corporal é fazer essa analogia, mostrar que é possível voltar a habitar essa casa.

Todos percutindo os ossos como quem bate na porta da própria casa

Que tipo de feedback você costuma receber após uma aula dessa?

A pessoa costuma ficar como uma criança. Uma criança, quando descobre uma coisa nova, fica fascinada. A criança tem essa questão do corpo naturalmente, ela brinca o tempo todo porque está se conscientizando, se conhecendo, se percebendo, pesquisando… Se uma criança estiver parada, a tendência é que ela esteja doente, porque uma criança saudável vai estar sempre pesquisando e sentindo o próprio corpo. Por outro lado, a gente vai crescendo, ficando adulto e caindo cada vez mais num padrão meio robótico, repetitivo. Por isso é maravilhoso quebrar esse padrão. Teve um feedback muito bacana. Outro dia, encontrei no Vegan Vegan uma pessoa que participou de uma vivência no SOS Saúde, e ela veio contar que mantém agora uma colher de pau na mesa de cabeceira para percutir diariamente os ossos – que é um dos exercícios que eu passo na aula, para trabalhar a sensação dos ossos, essa estrutura -, e que agora, quando não faz isso, sente falta. Outras pessoas também vieram contar que estavam impressionadas porque nunca um fisioterapeuta antes havia dito que era preciso soltar o joelho. A pessoa tem uma espécie de “eureka!”, ao perceber que uma mudança simples muda todo o eixo e toda tensão na cadeia posterior. “Como é que ninguém nunca me falou?!” Eu ouço muito isso. A gente, afinal, é um sistema de alavancas, de roldanas, cordas, elásticos. A percepção dessa biomecânica faz muita diferença. Eu não vou estar sempre perfeita, mas eu estou sempre consciente. Eu percebo quando meu joelho está muito tenso, quando esticou, foi lá para trás… e aí “opa, deixa eu corrigir para não causar nenhuma lesão”. E assim você aprende a desfazer uma dor, uma pisada errada, um quadril muito fechado, a fazer pequenos ajustes até passar aquela tensão, antes que vire uma tendinite ou coisa parecida.

Você cita algumas escolas de técnicas corporais nas suas aulas e atendimentos. Poderia falar sobre elas?

Minha primeira fonte é a Angel Vianna. Quando eu fiz, nos anos 90, era uma escola técnica de dança, hoje é uma faculdade. Mas é bem mais que isso, é um trabalho de conscientização do corpo e do movimento. Ali eu aprendi toda a minha base. Hoje eu sou fisioterapeuta porque antes eu fui uma dançante na Angel. Sempre dancei, sempre tive contato com o meu corpo pela dança, mas nunca uma dança como essa, que faz você tomar consciência do seu corpo. E mais tarde, a Fisioterapia costurou tudo isso, me deu o chão que eu precisava. Depois disso, eu fiz duas formações essenciais: o Método Ivaldo Bertazzo, que fala sobre a Reeducação pelo movimento, o gesto organizado, o “gesto justo”. E o Método Cadeias Musculares e Articulares GDS, da fisioterapeuta belga Godelieve Denys-Struyf, que codificou as pulsões psicocomportamentais. Segundo o GDS, a gente tem uma postura X, Y ou Z de acordo com uma pulsão psicocomportamental específica. Como eu penso, como eu ajo, como me expresso, como me relaciono com o mundo e comigo mesmo? A partir dessa psiquê, desse emocional, você terá um padrão postural. Godelieve começou a pesquisar isso. Uma dor lombar precisa ser tratada de forma individualizada para ter resultados. Porque a pessoa desenvolve uma cadeia própria, de acordo com sua pulsão.

Mas eu devo minha formação sobretudo à dança. Eu sou o que sou porque eu danço.

Por falar nisso, você trabalha com Danças Circulares. Ela entra nesse seu caldo cultural, não entra?

Se tivesse espaço, com certeza eu faria uma roda de Dança Circular no SOS Saúde (risos). Ela une todas essas experiências que eu falei antes. As Danças Circulares são danças dos povos. Desde os povos bem primitivos, a humanidade se expressa pela dança, em volta da fogueira, até as danças mais elaboradas. Tem um pensamento bonito de Santo Agostinho, “ó ser humano, dance, senão os anjos do céu não saberão o que fazer com você”.  A dança é a atividade mais completa, porque ela trabalha seu corpo, seu emocional e é uma meditação também. A dança circular promove também a integração, você com você e você com o grupo, além de trabalhar as danças e as músicas de várias culturas.

Fica a dica: dancem!

ESCRITO POR

Vegan Vegan

Criado em 2004, o Vegan Vegan é mais que um restaurante 100% vegetariano. É também um espaço para debater a alimentação vegana, seus princípios e benefícios para a saúde.